Você está aqui: Home > Em ação > Diários De Bordo > Julia Bartsch, psicóloga, conta sua nova experiência com MSF, agora no Chade
Indique esta notícia

Julia Bartsch, psicóloga, conta sua nova experiência com MSF, agora no Chade

Julia Bartsch
Publicada em 30/07/2010 00:00

Parte 1 - 10 de julho de 2010, Abéché, Chade

Muitas ruas cobertas de areia, muitas cabeças femininas cobertas de pano, alguns homens também se cobrem com suas longas batas. Cabras, jumentos, motos e tuctucs (o táxi local, uma espécie de lambreta adaptada que puxa uma cabine para três pessoas), construções térreas com paredes incompletas, algumas pintadas de amarelo areia, como quase tudo ao redor, outras de tijolo aparente e sem o charme que a expressão evoca. Tetos de palha, o som da reza vindo da mesquita e muito, muito calor. É por este cenário que passo todos os dias para ir à Village des Femmes (aldeia de mulheres, literalmente), nome do espaço do projeto Papillon (borboleta, em português), feito para receber mulheres que esperam o momento de serem operadas e onde se recuperam por algum tempo antes de retornarem as suas cidades ou aldeias.

A Village des Femmes reproduz o espaço que para as pacientes já é de algum modo familiar. Uma área aberta, protegida por um telhado de palha permite que elas abram suas esteiras de vime no chão de areia e que confraternizem, compartam a comida preparada ali mesmo com a ajuda de suas acompanhantes e descansem. As três salas de aula cedidas pelo pequeno hospital que fica cerca de cem metros dali são usadas da seguinte forma: uma serve como sala de atenção médica e nas outras duas funcionam os quartos das pacientes, mobiliados por camas de hospital cobertas por redes anti-mosquito. O cenário do projeto é complementado pelas grandes tendas de MSF, comumente vistas em campos de refugiados, mas que ali servem para colocar camas extras e guardar o material do dia a dia. As lousas são preenchidas com tabelas que indicam entradas e saídas das pacientes, entre outras informações de controle.

Eu divido uma mesa de plástico, colocada ao lado de uma pequena parede de madeira levantada em um dos quartos, com a assistente social natural do Chade, que faz o trabalho de intervenção psicossocial, foco da minha missão. Aqui no Chade, os poucos psicólogos que existem focam exclusivamente a educação escolar, e existe apenas um psiquiatra em todo o país, segundo fui informada. De modo que são os assistentes sociais que muitas vezes fazem o trabalho de atenção em saúde mental, pela formação que recebem em aconselhamento e sensibilização.

Pois se essa mesa de plástico pudesse entender algo, escutaria muitas histórias de pacientes que, por consequência da fistula obstétrica, uma comunicação anormal entre a vagina e a vesícula e/ou entre a vagina e o reto – provocando incontinência urinária e/ou fecal - sofrem toda sorte de discriminação, são apartadas da sociedade, impedidas de participar do cotidiano e de rituais religiosos, são abandonadas pelo marido e algumas vezes mesmo pela família.

Elas, as pacientes, são também culpabilizadas, ou assim se sentem, pela perda do bebê durante o trabalho de parto. Um procedimento que pela falta de assistência (a imensa maioria das mulheres dá a luz em casa, longe de hospitais e sem ajuda de pessoas especializadas), pode durar dias, o que provoca a fistula por conta da pressão feita pelo bebê ao tentar sair.

O trabalho de parto é muitas vezes difícil pela gravidez em uma idade em que o corpo ainda não cresceu completamente. No Chade, as mulheres-meninas podem ver-se casadas antes mesmo de entrar na puberdade. Difícil falar em adolescência.

Para estas pacientes, que chegam ao projeto graças ao trabalho dos sensibilizadores que vão às cidades e aldeias esclarecer o porquê da incontinência e falar da fístula obstétrica (algumas, sem saber a razão, se isolam ou são isoladas pela crença de que seja uma espécie de punição), e que vêm carregadas de esperança por uma vida regular após a operação, foco do projeto de MSF no Abéché, o espaço de atenção psicossocial lhes permite elaborar sentimentos a respeito de suas próprias histórias. Além disso, elas tem a possibilidade de reconhecer sintomas psicossomáticos e ver diminuídas dores psíquicas através da escuta profissional, sessões de relaxamento e atividades ocupacionais.

Após quase um mês aqui, já foi possível acompanhar a luta dessas mulheres que, às vezes vivendo anos com a fistula obstétrica e suas consequências físicas, psicológicas e sociais, deixam o projeto cheias de coragem, com um sorriso no rosto e um olhar de alegria contagiante rumo a suas novas vidas.

O portão de madeira se fecha atrás delas enquanto elas partem. Outra porta se abriu.

30/07/2010 - Julia Bartsch, psicóloga, conta sua nova experiência com MSF, agora no Chade

Julia Bartsch, Psicólogo