O melhor de Moçambique não está nas notícias

Larissa e Costantino Monteiro, da equipe de comunicação de MSF em Moçambique. Maio de 2024. ©Arquivo pessoal

Após retornar do projeto de MSF em Moçambique, a jornalista brasileira Larissa Verdier fala sobre a força da comunidade em momentos críticos

Precisei de quase um ano para conseguir ordenar sentimentos e eleger palavras que descrevam uma parte do que vivi com Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Moçambique. Somente agora crio coragem para compartilhá-las.

Trabalho na Comunicação de MSF desde 2023, no escritório do Rio de Janeiro, e em 2024 fui convidada para trabalhar por seis semanas nos projetos da organização na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

Em meu trabalho no Brasil, já havia escrito muitas vezes sobre os violentos conflitos que ocorrem desde 2017 em Cabo Delgado, sobre a destruição das estruturas de saúde e as milhares de pessoas deslocadas na região. Muitas vezes escrevi sobre famílias inteiras forçadas a fugir em direção a lugar nenhum, senão à sobrevivência. Eu conhecia a situação em Moçambique. Mas, entre as muitas coisas que eu ainda não sabia sobre aquela terra, estava o que de mais precioso ela produz: pessoas.

Logo na chegada, procurei organizar as minhas prioridades para aquelas seis semanas de trabalho. Uma delas era produzir um artigo sobre a transferência de pacientes entre as cidades de Macomia, onde MSF mantinha uma clínica de saúde, e Pemba, capital da província. Admito que fiquei um tanto obcecada com este tema, e durante semanas importunei colegas de trabalho, desde a coordenadora-geral de MSF em Cabo Delgado até o coordenador de logística, atrás de autorização para acompanhar e documentar uma dessas viagens.

Arredores de Pemba, capital de Cabo Delgado. Maio de 2024 ©Arquivo pessoal

Minha obsessão era justificável, veja bem: duas ou três vezes por semana, a ambulância de MSF saía de Macomia em direção a Pemba, um trajeto de cerca de 200 quilômetros, levando para a capital pacientes que precisavam de cuidados especializados. Em Macomia, viviam muitas pessoas deslocadas pelos conflitos, e a própria cidade estava envolta em um clima de tensão, na possibilidade permanente de novos ataques.

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O caminho de Macomia a Pemba era extremamente perigoso e difícil, com uma estrada ruim e que piorava muito a depender das condições climáticas. Só era possível fazer esse trajeto sob a luz do dia, por conta da segurança, e cada quilômetro percorrido envolvia o trabalho de uma grande equipe nas duas cidades.

Eu, habituada ao meu trabalho dentro de um escritório, estava encantada com o trabalho e a coragem daquelas pessoas, especialmente com os motoristas e profissionais de saúde – todos eles moçambicanos – que acompanhavam os pacientes nesse trajeto arriscado. Um dos motoristas com os quais conversei, que vivia em Macomia, me marcou especialmente.

Ele era daquelas pessoas que sorriem com o rosto inteiro – com os olhos, com as mãos, com as palavras… e sorria o tempo todo. Entre gargalhadas, ele descreveu algo assim: “Em alguns trechos tem tanto mato, que você não enxerga a um metro de distância do carro. Parece a Floresta Amazônica!” Depois, completou, o sorriso já de partida: “Tem outro trecho que você olha para os lados e só vê casa queimada [pelos conflitos], uma atrás da outra. A gente fica tão tenso que não consegue se falar, é só silêncio. Aí, quando esse trecho passa, a gente vai voltando a conversar, é natural.”

Encontrei esse motorista poucos dias depois, entre silêncios. Ele havia ido deixar pacientes de Macomia no hospital de Pemba e, no período que precisou permanecer na capital aguardando orientações de segurança para retornar, a cidade de Macomia foi invadida por grupos armados não-estatais. A população havia fugido, e a equipe de MSF na cidade foi obrigada a se esconder. Eu ainda não sabia, mas naquele dia, antes de submergir em seu silêncio, ele havia se disponibilizado, assim como outros motoristas de MSF – todos eles moçambicanos – para buscar esses profissionais da organização em Macomia.

Felizmente, toda a equipe conseguiu retornar com segurança a Pemba. Alguns dias depois, a coordenação de MSF organizou uma grande reunião com todos os profissionais de Macomia para definir os próximos passos do projeto, além de compartilhar as vivências e angústias. De motoristas a profissionais de saúde e administrativos, a imensa maioria daquelas pessoas era nascida e criada em Moçambique, muitas delas em Cabo Delgado. Aquelas pessoas reunidas diante de mim eram as responsáveis por levar serviços de saúde a Macomia.

Naquele dia e nos dias seguintes, ouvi relatos de como os pacientes ajudaram os profissionais de MSF nos momentos de pânico. E ouvi, de um enfermeiro moçambicano, um dos muitos aprendizados que carrego comigo: “O único capaz de salvar o ser humano é outro ser humano”. Me dei conta do que agora me parece óbvio: o papel de Médicos Sem Fronteiras ali é oferecer os recursos que a violência tem tomado, mas quem salva as pessoas em Moçambique são os próprios moçambicanos.

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