Gaza: Cerco das autoridades israelenses completa um mês, com esgotamento de suprimentos médicos

Escassez está forçando equipes de MSF a tratar feridas sem alívio da dor e racionar medicamentos essenciais

Clínica móvel de MSF na cidade de Jabalya, norte de Gaza. Fevereiro de 2025. ©Nour Alsaqqa/MSF

Após um mês do cerco imposto pelas autoridades israelenses em Gaza, na Palestina, alguns medicamentos essenciais estão em falta ou se esgotando, deixando os palestinos em risco de perder cuidados de saúde vitais. Enquanto as forças israelenses continuam a bombardear a Faixa de Gaza, as pessoas são privadas de itens básicos, incluindo alimentos, água e medicamentos, o que pode levar a um grande número de complicações de saúde e mortes.

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MSF pede às autoridades israelenses que cessem imediatamente a punição coletiva dos palestinos, acabem com o cerco desumano a Gaza e assumam suas responsabilidades como potência ocupante para facilitar a entrada de ajuda humanitária em escala suficiente.

As autoridades israelenses condenaram as pessoas de Gaza a um sofrimento insuportável.”
– Myriam Laaroussi, coordenadora de emergência de MSF em Gaza

Há mais de um mês, nenhuma ajuda humanitária ou caminhão comercial entra em Gaza, marcando o período mais longo desde o início da guerra sem que nenhum suprimento tenha entrado na região. Em 2 de março, as autoridades israelenses impuseram um cerco completo a Gaza e, em 9 de março, cortaram a eletricidade necessária para fazer funcionar as usinas de dessalinização de água. Esse bloqueio total de ajuda e eletricidade privou as pessoas da maior parte dos serviços básicos, o que equivale a uma punição coletiva.

“As autoridades israelenses condenaram as pessoas de Gaza a um sofrimento insuportável com seu cerco mortal”, diz Myriam Laaroussi, coordenadora de emergência de MSF em Gaza. “Esta imposição deliberada de danos às pessoas é como uma morte lenta, e deve terminar imediatamente.”

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O cerco forçou as equipes de MSF a começar a racionar medicamentos como analgésicos, fornecer tratamento menos eficaz ou recusar pacientes. As equipes também estão ficando sem suprimentos cirúrgicos, como anestésicos, antibióticos pediátricos e medicamentos para condições crônicas como epilepsia, hipertensão e diabetes. Como resultado do racionamento, nossas equipes em algumas clínicas de atenção primária à saúde são obrigadas a realizar curativos nas pessoas feridas sem fornecer nenhum alívio da dor.

Além disso, as equipes de MSF não podem mais doar bolsas de sangue para o hospital de Nasser devido à falta de estoque, ainda que o influxo de pacientes feridos na guerra continue.

Estrutura de poço destruída em Gaza. Março de 2025. © Nour Alsaqqa/MSF

Escassez de água limpa provoca doenças de pele

As nossas equipes estão testemunhando um aumento de pessoas com doenças de pele nas clínicas de cuidados primários de saúde em toda a Faixa de Gaza, por causa da falta de sabão e água limpa. Em fevereiro, MSF tratou 565 casos de doenças de pele na clínica Al Hekker, em Deir Al Balah, e 1.198 casos na clínica Al Attar, em Khan Younis. Em março, em apenas duas semanas, o número de casos em Al Hekker já havia atingido 437 – quase 80% do total de fevereiro. Já em em Al Attar, 711 casos foram tratados nesse período, quase 60% do número observado em fevereiro.

Abed al Raheem, pediatra de MSF, examina uma criança na clínica de Mawasi. Março de 2025. © Nour Alsaqqa/MSF

O bloqueio aos suprimentos deixou as equipes de MSF incapazes de fornecer medicamentos para tratar as doenças de pele, somente com pequenas quantidades de loção para aliviar a dor. Condições cutâneas como a sarna requerem tratamento para toda a família, para evitar a propagação e reinfecção, mas sem medicamentos e água limpa isso é impossível.

Para pessoas com doenças não transmissíveis, como hipertensão e diabetes, as consequências da falta de tratamento podem levar a complicações graves, como deficiências permanentes e, em alguns casos, até a morte. Desde o bloqueio, MSF só consegue fornecer medicamentos aos pacientes para cobrir suas necessidades por sete a 10 dias.

“Eu não tenho mais nenhum medicamento para pressão arterial. Meu filho procurou por dois dias e não conseguiu encontrar nenhum ”, explica Sobheya Al-Beshiti, paciente da clínica de MSF em Attar, Khan Younis. “O que eu posso fazer? Ficar sem tratamento? Se eu não tomar meu anticoagulante, meu nariz começa a sangrar e eu começo a tossir sangue.”

As pessoas simplesmente não podem se dar ‘ao luxo’ de comprar itens de primeira necessidade.”
– Paciente de MSF na clínica em Mawasi, Khan Younis

Durante o mês sagrado para os muçulmanos do Ramadan e do Eid, os pacientes nas clínicas de MSF relataram perda de peso e falta de acesso a alimentos adequados.

“No momento, meus níveis sanguíneos estão baixos e meu peso também está baixo. Não há alimento suficiente para me ajudar a ganhar peso ou aumentar meus níveis sanguíneos”, explica uma gestante na clínica de MSF em Mawasi, Khan Younis. “O aumento dos preços é um grande problema na cidade: as pessoas simplesmente não podem se dar ‘ao luxo’ de comprar itens de primeira necessidade, porque é tudo muito caro.”

 

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